sexta-feira, 25 de maio de 2012

O suplício dos sapatos

Seu Moreira era um senhor de 50 anos, representante de um laboratório farmacêutico, o cliente mais amigo da sapataria do bairro onde morava, no subúrbio do Rio de Janeiro. Devido muito mais a barriga do que a própria idade tinha certa dificuldade para experimentar os sapatos e, por isso, não dispensava a ajuda do vendedor, que, com a humildade de sempre. Agachava-se e, com uma calçadeira, empurrava aquele pé gordo para dentro do sapato encolhido. Puxava o cadarço e dava o nó, enquanto seu Moreira fazia uma cara de dor, como se chupasse limão azedo.
Curioso, porém, era que o homem nunca reclamava, fazia sempre questão de levar sapatos de um numero menor que o seu. O vendedor, ainda que muito intrigado, não se julgava no direito  de questionar a decisão do cliente, mas sempre lhe vinha a mente a mesma pergunta: Por que o seu Moreira compra sempre sapatos menores?
Num belo sábado a tarde, seu Moreira apareceu muito bem disposto à sapataria. Nem parecia que tinha perdido a esposa há pouco tempo. De fato, estava alegre e de bem com a vida. Escolheu um novo modelo de sapatos, mais bonito e mais caro que o usual. Quando o vendedor lhe trouxe o numero de sempre, sorriu e disse: “Não, meu bom amigo. Não uso mais esse numero. Traga um maior, por favor”.
O sapato agora lhe coube como uma luva. Em vez de andar como se tivesse pisando em vidros, seu Moreira dava passos felizes e sorria quando andava. “Amigo, tenho certeza de que muitas vezes o intriguei quando comprava um sapato de numero menor que o meu e me obrigava a andar com aquelas dores nos pés. É que sendo muito mal casado, tinha uma esposa que me infernizava a vida, falando e reclamando todo o tempo que estava em casa. Quando no trabalho, eu me lembrava que, ao anoitecer, teria que voltar e suportá-la, consolava-me o fato de que pelo menos em casa poderia tirar os sapatos que tanto me atormentavam. Agora, depois de muito sofrer, vejo-me livre de dois tormentos e, por isso sinto-me tão feliz! Fiquei viúvo e, portanto, não preciso mais dos sapatos apertados.
Copiei.

1 comentários:

Arn 8 de junho de 2012 08:24  

Isso acontece. É bem verdade

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