quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Perdão, filhinho

Escute, filhinho
Esta noite, vendo você adormecer com a mãozinha no rosto e os cabelos espalhados pela testa sinto-me horrivelmente envergonhado. Por isso é que fugi para o seu quarto, para estarmos sozinhos os dois. Ainda há pouco, estava lendo o jornal na sala quando, de repente, o remorso me dominou, e vim, como um criminoso, parar aqui, perto da sua cama. Sabe o que pensava? Em todas as coisas que hoje me irritaram tanto. Esta manhã, quando você se preparava para a escola, eu o repreendi severamente porque você lavara o rosto como um gato. Depois, eu o pus de joelhos, porque você não engraxara os sapatos. E fiz um escândalo, porque você derrubou leite no chão. Na hora do almoço, ainda achei um jeito de censurá-lo: “Você vai entornar o copo. Não ponha os cotovelos na mesa. Você está pondo muita manteiga no pão”. Pouco depois, quando eu entrava no carro, você, da porta, abanou a mãozinha, dizendo: “Até logo papai!” E eu respondi: “Endireite os ombros. Você acaba corcunda!”.
E a coisa continuou. De tarde, vendo-o jogar bola de gude com os amigos no pátio, olhei para os seus joelhos; você havia rasgado a calça! Aproveitei a oportunidade para humilhá-lo diante dos amiguinhos, ordenando-lhe que fosse, andando na minha frente, para casa. “Roupas custam caro. Se você tivesse que comprá-las, teria mais cuidado”. Imagine, meu filho, da parte de um pai, que lógica mais estúpida.
E esta noite, enquanto eu estava lendo, você apareceu timidamente na porta da sala, com uma carinha passada. Levantei os olhos do jornal, aborrecido por me interromper. Você hesitou um instante, “O que ainda quer comigo?” resmunguei. Você respondeu: “Nada, papai!” e então se atirou no meu colo, passou os bracinhos em torno do meu pescoço e me beijou uma... Duas, três vezes... Não sei mais... Com um amor que só Deus podia ter posto no seu coração. E você logo se foi escada acima.
Pois bem, meu filho, só alguns minutos mais tarde o jornal caiu-me das mãos, senti aquele arrepio no coração e tomei consciência do meu terrível egoísmo. Que foi que o habito fez de mim? O mal habito de queixar-me, de reclamar, de repreender e tudo isso porque você é apenas uma criança! No entanto, não era por falta de amor, mas porque eu esperava demais da sua idade! Eu o media com a minha escala e estou bem triste comigo, pode crer.
Prometo que, a partir de agora, nem meus aborrecimentos prevalecerão sobre o amor que tenho por você. E darei a você todo o tempo que me pedir.
Perdão, filhinho. Boa noite, meu bem.
Copiei.

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