terça-feira, 9 de novembro de 2010

Conversa no ônibus

Quando não durmo bem à noite, é uma constante, tenho insônia, e sei a razão, apenas e tudo isso: medo, pode? Mas não é isto que pretendo contar. O cotidiano é o melhor palco para o teatro da vida. Sabe por quê? É verdadeiro, sem máscara, não importa senão o fato real. É a argila de que molda a vida. A vida de todos. O balanço do ônibus, para mim, é receita inigualável para um cochilo reparador, o balanço, ah! O balanço...
Num desses solavancos que perturbam o sono, percebi que tinha companhia no banco. Uma senhora de idade bonita, de cor negra, vestida de modo simples e limpa, saia preta, blusa branca, sem exagerados enfeites e com seu próprio perfume. Após o meu instante de vigília, voltei a fechar os olhos. Ouvi a voz mansa da minha companhia. Sabia que era verdadeiro o que dizia, assim como afirmei no início “senão o fato real...”. Sabe – dizia - durante toda a minha vida, até a muito pouco, construía meu castelo. Não, imaginava. Acho até que fantasiava. E este castelo erguido por uma quietude servil, da qual hoje me arrependo, ou não, isto não mais importa, enfim, o castelo caiu, e toda a minha forçada inocência fez-me estremecer, disse a mim mesma, perdi a vida vivendo nada, nadinha. Tentei erguer a bandeira da vitória, subir no monte e gritar “venci”, não tinha voz, não tinha o que festejar, fui um fracasso engatinhando para receber afago e nem isso recebi. Hoje, me recolho à vontade de Deus qualquer, nas mãos do destino incerto, danço a música da tristeza, do arrependimento, não há mais sonhos e menos ainda fantasias que ensaiava timidamente antes. Faço cara séria, tento aparentar uma tigresa, assim, tipo “não me toquem, sei me defender”, sei que nunca o soube, e muito menos hoje, fico numa espera passiva. Tenho atividades que enganam, fazem-me sentir útil, pra quem? Meus bichos, minhas plantas, minha casa? Sua voz tornou-se quase inaudível, abri os olhos e percebi brilho nos olhos dela. Não, eram lágrimas. A expressão era de calma e beleza que transcendia seu rosto com sinais da idade e da vida de muitos e muitos anos perdidos. Neste instante, vi uma luz em seu rosto, uma santificação transmutando a sua fisionomia em uma santidade que nunca imaginei ser possível num humano. A espiritualidade vinha de um ser búdico resplandecente, ao seu lado, sorrindo fazendo-a ainda mais bela. Desci contagiado pelo momento. Quando o ônibus se afastava ainda vi a luz que ninguém tinha percebido. Foi uma experiência de amor compartilhado, senti uma felicidade e leveza. Emociono-me ao relembrar estes momentos únicos. Preciso compartilhar contigo. É do cotidiano, do palco da vida. É nosso.
A: I. V. K.

1 comentários:

Arnoldo 12 de novembro de 2010 04:22  

Bom dia Ligia, me transportei nessa viagem. acho que vi um pouco de você. belo texto. bom fim de semana. bjs deste fã

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