segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Truques em Nome do Amor

Um casal de velhinhos a que, chamaremos Sr. Matias e Sra. Carmem foi ao médico. A Sra. Carmem precisa de uma consulta e o Sr. Matias apenas a acompanhava. Antes que saíssem, ela deu uma cutucada no marido e ele então se lembrou de perguntar ao terapeuta se eles ali tratavam do ouvido, porque a mulher achava que ele estava ficando surdo. Diante da negativa - eles não tinham terapia para a surdez -, o velhinho olhou para mim e fez sinal de que a sua mulher estava ficando maluca. Aí sorriu com cara de moleque, piscou e foi embora. E tanto eu quanto o terapeuta ficamos com a certeza de que nem a velhinha estava ficando maluca nem o velhinho, surdo. Era provavelmente um caso típico da idade: a idade deles e a do casamento. Àquela altura o velhinho só estava a fim de ouvir o que lhe era conveniente, daí que surgiu uma surdez providencial que o ajudava a manter a união. E, assim, de pequenos truques e abnegações, com uma pequena surdez aqui, uma paralisia ali, uma cegueira acolá, todas muito convenientes (mas todas com limites) a gente vai levando essa coisa estranha chamada ‘amor’ e essa coisa praticamente inviável chamada ‘casamento’.

O velhinho surdo é que está com a razão.
(Texto adaptado de uma leitura de jornal).
Por: Ligia.

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