segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Vizinha da Outra Rua

(Uma história verdadeira)
Um dia, estando eu chegando muito cansada, ainda com alguns desafios a vencer, eis que dou de cara com a vizinha da outra rua, alegre e satisfeita tecendo lindos gorros em crochê. Aí, voltei no tempo e lembrei-me de quando a conheci.
Sempre que passava naquela rua, a via triste, taciturna, parecia que nada na vida a interessava. Comecei por cumprimentá-la, cada vez que a via. Até mudei meu itinerário, pois havia ficado deveras impressionada com aquela pessoa tão fragilizada, acabada. Para bem dizer, não era uma menina, mas também não era a velha que parecia ser. Depois fiquei sabendo que tinha pouquinho mais de trinta anos. Jovem mulher, muita vida pela frente...
Comecei a parar por uns minutos, inventava assunto e acabamos estreitando uma amizade. Soube que se chamava Sandra e tinha voltado para a casa da senhora sua mãe. Aos poucos, começou a falar-me da sua vida. Havia perdido uma mama por causa de um tumor maligno, e foi abandonada pelo marido com quem era recém casada, por puro preconceito dele. Achava-se sem condições de lutar contra a depressão e muita vez havia se recusado a tomar os remédios que a ajudariam a vencer a crise. Queria morrer. E falou que ficava nos cantos do quintal para a mãe (que cuidava dos afazeres da casa) não a visse chorar.
Navegando na internet, fiquei sabendo que alguns hospitais da rede pública já ofereciam um tipo de cirurgia gratuita para reconstrução da mama em pessoas nessa situação. Pesquisei muito, e de posse de algumas informações, comecei a conversar com Sandra. Confesso que tive que insistir muito até ela começar a prestar atenção. Um dia acabou cedendo. E começamos as peregrinações pelos hospitais, quando ela não podia ir, era eu que saía em busca de maiores detalhes sobre os procedimentos. Foi longa a procura, longa e dolorosa. Por vezes, era a própria Sandra que não me deixava desistir.
Hoje, ela está inscrita na fila para a cirurgia, esperando a chamada para começar os exames complementares. É bem provável que até o mês janeiro ou fevereiro 2010, Sandra esteja operada e com seio novo. Demorou um pouco, nós sabemos, mais isso não diminuiu a nossa fé e nem o nosso entusiasmo. Deus permitiu que ela conseguisse acompanhamento médico e psicológico na própria instituição onde deverá ocorrer a cirurgia, e com certeza tudo sairá muito bem.
Quem vê essa jovem senhora hoje, encontra uma pessoa mais alegre, humorada. Ainda tem momentos de depressão, desânimos passageiros, mas a vejo bem mais esperançosa do que uns dois anos atráz (mais ou menos), quando se mudou para a rua perto da minha. (Psiu! Já tem até um candidato a namorado, viu!)
Ao parar para o costumeiro papinho, fiquei sabendo que os gorrinhos (toucas) são para as criancinhas do INCA (Instituto Nacional do Câncer) que perdem os cabelinhos por causa do tratamento de quimioterapia.
Lembrei-me de um provérbio que diz: _ “Quem enxuga lagrimas alheias, não tem tempo para chorar”.
Pude meditar que a vida é uma eterna lembrança. O que vivemos hoje, e o que fizemos no passado, são o impulsionador do nosso futuro. Com forças renovadas, me preparei para a luta, pois o dever me chamava...
E vi transformada num pequeno grão de areia, a montanha que teria que escalar.
Este episódio foi um grande aprimoramento para mim.
Publicada com autorização de Sandra Lúcia Gomes da Silva.
A: Ligia.

2 comentários:

dryka 24 de novembro de 2009 04:06  

"FELIZ ANIVERSÁRIO, LIGIA"
Desculpe o atraso, querida!
Que esta dat seja apenas o começo de uma sucessão de eventos felizes, repetidos dias após dias, semanas, meses e anos incontáveis. Sempre com saúde, paz, felicidade e muita alegria.
Voe fenix, até onde suas asas te levarem. Se quiseres pousar, que seja numa nuvem... Descer, venha pelo arco-iris. E não meça a distância, pense apenas que ele é seu... O pote de ouro, no final...
(Gostei da postagem, verdadeira. Bem coisa sua. Deus lhe abençoe).
Um grande beijo no seu coração.

Casa da mãe Casa da filha 24 de novembro de 2009 14:56  

Ligia, fiquei muito emocionada com esta história, e para dizer a verdade quem perdeu não foi a Sandra, mas o ex-marido, que perdeu a oportunidade de conviver com esta nova mulher apaixonante e apaixonada pela nova vida. Parabéns Ligia, parabéns Sandra. bjs 1000 ao dobro - fffc

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